Hoje quero escrever sobre uma sensação muito boa e confortável que me alcançou neste final de semana. Estou me referindo àquela sensação de que encontrei o espaço e a segurança para ser tudo o que sou: Com minhas qualidades e defeitos, sendo que algumas destas falhas são encantadoras.
Isso mesmo. Apesar de saber e ter consciência de que tenho pontos a melhorar, me apaixonei por alguns dos meus ‘podres’. Será que isso também é um defeito? – Vou pensar sobre este paradoxo narcísico depois.
Enfim, para ilustrar, vai um causo. Outro dia estava conversando com um amigo mais jovem, amadurecendo, que me disse que cortaria seus cabelos-não-tão-longos, pois as meninas não costumam gostar de cabelos assim. Quando perguntei se o penteado era para ele ou para os demais, meu amigo “contrargumentou” [neologismo] que a aparência era, notadamente, para os outros e que nosso estilo é (ou deve ser) montado para agradar terceiros.
Doeu. É uma concepção bizarra, mas não o julguei (quem sou eu para julgar) por dois motivos: Além de jovem, ele vive num mundo (nem restringirei a sociedade), que prega estes dogmas com tanta força e, ao mesmo tempo, sutileza, que sequer notamos.
Já em outra situação, fui recriminado por uma amiga justamente por fazer algo que gosto muito, e não é ofensivo a ninguém – posso garantir –, na companhia de pessoas que eu deveria, supostamente, ‘impressionar’. Mas que pessoa seria digna da minha presença e interesse se ao lado dela tenho de abrir mão do que sou, das coisas que gosto, para conquistar? Que tipo de relação sólida e sadia, seja de amizade ou amor, começa com a supressão do ser e estar?
Enfim, neste final de semana, fui o que sou em todos os sentidos imagináveis. Conversei, observei, agi e respeitei, tudo a minha maneira. E como recompensa, tive meu coração tocado por uma pessoa especial, o que acabou sendo mais significante de que tocá-la, de alguma forma, também. Ficamos juntos e foi muito gostoso.
Estou viciado em constatações já muito batidas e clichês, mas esta é forte e relevante: Uma pessoa tem de gostar de você pelo que você é, e você o deve ser desde os primeiros minutos para valer a pena.
Na ‘arte da conquista’, muitas pessoas mascaram seus hábitos, desejos e ansiedades para se aproximar e criar vínculos. E o que fica instituído então é a dualidade: De um lado está o que ‘você é’, e do outro aquilo que ‘você consegue ser’. A principio pode até ser cômodo, útil e funcionar, mas logo estes dois opostos entraram num embate feroz e nada saudável.
E assim que as projeções de um relacionamento se desmancham (pois as datas de validade deste produto são bem breves), quando passa a ser incômodo suprimir desejos e hábitos, e o eu verdadeiro quer se manifestar, o que sobra? Resposta: A amargura de um relacionamento onde ambos guardam a sensação terrível de que não se conhecem… E o fato é que, na realidade, essa sensação chega próxima de ser verdade.
Tudo isso é muito marcante nos nossos dias.
Já constataram que a maior fuga, da grande maioria das pessoas, a nível de expressão, é precisar se esconder para poder se mostrar? Note bem: “Esconder para poder se mostrar”. Essa acaba sendo a tônica. É a supressão da sociedade e a vitória final sobre o indivíduo. O cenário de ‘1984’, para quem conhece, não é tão distante assim. No máximo, é um pouco diferente.
Bom, que texto enorme. A felicidade do domingo me contagiou mesmo. Nunca havia escrito tanto assim para este blog [que só eu, e mais alguns perdidos, acompanham].
Hoje posso dizer que estou feliz.